Esse depoimento é uma extensão do projeto Resistir em homenagem ao dia das mães.

 

Meu nome é Aleusa Aparecida Theodoro. Estranho não é mesmo? Mas é a junção dos nomes dos meus pais: Al/cides + N/eusa = Aleusa. Coisas de gente antiga (risos). Tenho 55 anos e creio que extremamente bem vividos.

 

 

Eu e minhas três irmãs mais velhas, nascemos com um ano de diferença cada, sendo assim, minha mãe tinha uma na barriga, uma no braço, uma na mão e a outra segurando onde sobrava ou encontrava espaço. A prole cresceu a ponto de eu ter 7 irmãs, sendo uma fora do casamento. Fui criada com muita dificuldade, pois nasci em uma família simples e humilde, minha mãe sempre fez de um tudo para ajudar meu Pai nas despesas mensais da casa, afinal de contas, eram 6 bocas para serem alimentadas em 4 anos de casados.

 

Me lembro claramente que nós usávamos as roupas das minhas primas ricas, que já não serviam mais para elas ou elas não queriam mais usar. Na época existia um programa “Primo Rico/Primo Pobre” e eramos nós mesmas, rs. Falando um pouco sério agora, crescemos e nos criamos com o que eles puderam nos dar, creio que sempre o melhor.

 

Comecei a trabalhar muito cedo e tudo o que ganhava, era para ajudar em casa e as vezes para comprar alguma coisa para mim. Quando a irmã mais nova nasceu foi uma festa, eu e as outras no dia do pagamento gastávamos tudo o que ganhávamos com coisinhas e mais coisinhas para ela. A “raspa do tacho”, nossa bonequinha.

 

 

Namorei na escola e escondido de papis, ele era muito bravo. Casei-me virgem, pasmem, mas na minha época era normal, apesar de que minhas irmãs não me seguiram na tradição (risos). Daí começaram os problemas, engravidei e tive meu primeiro filho, passados 10 anos eu tive minha segunda filha. Nesse meio tempo eu tive dois abortos.

 

 

Meu primeiro casamento não durou muito, por diversos motivos. Minha filha Júlia foi de um relacionamento conturbadíssimo, porém que valeu todas as experiências e principalmente o resultado do mesmo. Eu sofri muito para criar meu filho sozinha e sem experiência materna, de vida, de trabalho, enfim, tive que ser uma leoa e segurar tudo e todos, enfrentando os obstáculos sempre de cabeça erguida e afogando as magoas e tristezas no meu travesseiro literalmente.

 

 

Perdi meus pais cedo – sim, eu considero cedo demais – ambos com doenças graves e terminais, deprimente e mais uma vez me vi só e com meus filhos e os problemas que eles trazem que não são poucos.

O Pai da Júlia sempre me ajudou demais, porém sempre com muitas cobranças, porque ele queria que eu ficasse com ele, morasse com ele e vivesse com ele, o que era impossível, nossas diferenças eram enormes e importantes.

 

 

Infelizmente, ele também se foi e daí eu me vi mais uma vez, sozinha e tendo que lidar com mais um monte de fantasmas de todas as cores, (porque brancos ou transparentes eles nunca foram) e me virei novamente nos 30 para não deixar a casa cair, mas que ela ruiu várias vezes e que ficaram as marcas, não tenham dúvidas.

 

 

Criei meus dois filhos com tudo o que tinha e pude, tentei fazer meu melhor e sei que errei demais. Amor demais acaba nisso. Não me arrependo de nada que fiz, tudo foi mais que experiência e hoje eu carrego no meu corpo; as marcas de uma cesária, algumas estrias, uma coluna com escoliose, problemas de colesterol, falta de cartilagem nos joelhos… Porém com 55 anos, ainda me sinto uma mulher, linda, atraente, inteligente, dona de mim mesma, independente, corajosa e com bem menos adjetivos pejorativos.

 

 

Simplesmente porque a vida ensina quem quer aprender e porque conheci a coisa mais importante, Deus, e ele me transformou, transformou meu modo de pensar, de agir, de ser, de fazer, ainda tenho muito que melhorar.  Faltando apenas cinco anos para entrar literalmente na terceira-boa-idade, onde eu talvez não precise mais pagar a passagem do ônibus, possa tentar sentar no banco preferencial e mais umas tantas outras vantagens que essa idade proporciona.

 

 

Não posso reclamar da vida, conheci muitas pessoas, namorei muitoooooooooo, aprendi com a vida na dificuldade e dando a cara a tapa, e tudo isso me fez uma pessoa dura, fria, arrogante, infeliz, exigente, ponderada, matriarca – como sempre diziam minhas irmãs – e mais todos os adjetivos pejorativos que vocês possam imaginar.

 

 

Consegui ter meu primeiro carro com mais de 40 anos, nunca consegui ter uma casa, tive um comércio que quase me levou a 7 palmos debaixo da terra e na grande maioria das vezes, pessoas mais que especiais  no meu caminho, para me orientar e me ajudar.

Se eu parar, morro. Preciso de tudo o que tenho e que me cerca, trabalho, amigos, conhecidos, gente, dançar, passear, conversar, comprar, vestir uma lingerie da TBB, e quem sabe até encontrar uma cara-metade que me faça feliz até o dia em que Jesus me chamar para morar com ele.

 

 

ENVELHECER, no melhor sentido da palavra, é para poucos. A vida foi feita para ser vivida integralmente, literalmente e bravamente.

 

 

Essa sou eu resumidamente, mas sincera e honesta em tudo e com todos.