Você já se sentiu feia, inadequada e incapaz de fazer algo simplesmente pelo tamanho do seu corpo?
Você já foi tão humilhada por ser gorda a ponto de ter o impulso de se matar?
Aliás, já fizeram você acreditar que, por ser gorda, você nunca seria digna de amor ou carinho e que a única solução seria morrer mesmo?
Alguém já te obrigou a tomar remédios para emagrecer aos 12 anos?
Você já foi impedida de usar o banheiro da escola porque seus colegas decidiram que você não caberia ali e acabou urinando na própria roupa?
Depois disso ficou dias sem ir pra escola e descobriu que os mesmos colegas espalharam desenhos seus com os dizeres “gorda desaparecida”?

Você já foi alvo de aposta na escola, onde um aluno tinha que beijar a pessoa mais feia senão teria que pagar esfiha pro resto da turma?
Você deixou de ir em todas as festas da escola porque não tinha roupa bonita pra vestir?
Seus apelidos já foram: rolha de poço, chupeta de baleia, paquita do Faustão e baleia orca?
Toda vez que você via alguém com um corpo parecido com o seu ser representado na TV era na intenção de fazer alguém rir? Você sempre foi alvo de risadas?
Você cresceu acreditando que odiava praia ou qualquer esporte, mas na verdade foram outras pessoas que sempre te disseram isso porque seu corpo não era bem vindo nesses lugares?

Você sente pavor de entrar em algum ônibus e ter que passar na catraca porque sabe que vai entalar?
Você passa a viagem de ônibus toda em pé mesmo tendo bancos vazios mas não senta ao lado de ninguém pra não incomodar a pessoa com a sua gordura ou metade da sua bunda ficar sobrando no banco?
Você já deixou de comer em público por vergonha ou porque sabe que as pessoas vão controlar seu prato?
Você evita ir em restaurantes porque o espaço de circulação entre as mesas é ridículo?
Aliás, quando você vai no bar com seus amigos você passa a noite toda tensa com medo da cadeira quebrar e fica procurando maneiras de sentar com no mínimo conforto e segurança possível?

Você vai ao médico com dor no ouvido e volta com uma dieta na mão?
Esses mesmos médicos já deixaram de te atender e te mandaram procurar o endócrino e nutricionista de uma vez?
As pessoas te consideram incapaz no seu trabalho por conta do seu peso?
Você já entrou no maior shopping da América Latina e somente 3 lojas tinham roupa do seu tamanho?
Você já teve que gastar mais de 200 reais pra comprar uma blusa decente pra usar no dia a dia?
As vendedoras das lojas riem de você? Dizem que não tem nada do seu tamanho? Se negam a te atender mesmo que você esteja lá pra comprar um presente pra alguém?
As pessoas te usam como ponto de referência?

 

Pessoas desconhecidas se sentem a vontade de lhe indicar receitas milagrosas pra emagrecer?
Por conta da sua condição física você já ganhou outros adjetivos tais como

“gordo é tudo feio, porco, fedido e preguiçoso”?

As pessoas têm um fetiche sexual cruel em torno do seu corpo e acreditam que você irá ceder a tudo e fazer tudo na cama porque não sabe quando terá outra oportunidade de transar?
Aliás, as pessoas acham que estão fazendo um favor ficando com você e por isso é bom ser grata?
Você já pensou em se submeter a uma cirurgia invasiva e dolorosa simplesmente pra se adequar?
Você já quase sufocou de culpa e vergonha depois de comer e resolveu vomitar tudo até a garganta machucar?
Você se olhou no espelho e pensou em morrer hoje?

Então eu queria te fazer um único pedido: Não morra. Fique firme. Eu estou aqui.
Logo eu. Que assinei três sentenças. Nasci mulher e negra. E cresci gorda como ofensa.
De todas as formas do mundo tentaram me derrubar. Sempre me disseram que aqui eu não tinha lugar. Tentaram me quebrar e tão logo me encaixar.
Mas eu resisti. Parei de me mutilar. Consegui me olhar no espelho e descobri: Meu corpo é lar.

É minha moradia. É ele que me sustenta de manhã até o fim do dia. E é com ele que vou me reconciliar.
Vão dizer que ele é feio. Que não serve pra passeio e muito menos pra amar.
Mas esse corpo é maleável “amando, fica mais amável”, pode confiar.
Eu sei que é muito difícil. A indústria sempre cheia de artifícios quer nos fazer acreditar que até pra beleza existe um padrão.
Será que ninguém percebe esse tanto de riqueza que tem na diversificação?
Foi enxergando mulheres, andando com elas, falando com elas, ouvindo a história delas, que compreendi a auto-aceitação.
Hoje eu aprendi a me olhar.
Se ainda não deu tempo de cada dobra imperfeição eu amar, pelo menos já não tem espaço pra me odiar.

Ficha Técnica:

Maquiagem: Hilde de Paiva [instagram.com/hildepaivabeauty]
Cabelo: Dani Gaspariam [instagram.com/cabelosdadani]
Fotógrafa: Cristina Nishihara [cristinanishihara.com]
Lingeries: The Bralette Boutique [braletteboutique.com]