Meu corpo se tornou um estorvo assim que bati no muro da adolescência. Nunca vou esquecer do rapaz que me disse que eu era “linda de rosto” e devia tomar um remédio pra ser magra e toda linda. E me conseguiu o tal. Esse remédio chamava Inibex e eu emagreci rapidinho, sob os aplausos de todos e de todas. Que linda! Que magra! Magra! Magra! Agora pergunte: eu era gorda? Nunca fui.

Mas na época em que eu era jovem o padrão era ainda mais cruel que o de hoje, então, na minha cabeça, eu era gorda sim e precisava ser magra, esquálida, precisava das costelas e dos ossos que exibiam em todos os anúncios, em todos os clipes, em todas as revistas e foi assim que o meu distúrbio alimentar começou, aos 15, 16 anos, querendo pertencer, ser aceita, ser linda, ser linda e inteligente, ser tudo que agradasse para ser amada.

Era fácil encontrar remédio naquela época. O que eu nem imaginava era o que ele fazia com meu pobre corpo, me deixando sequelada até hoje, o que eu não sabia era que ele viciava, o que eu nem imaginava era que me tornaria dependente psicológica dele também. Foi um longo, longo, longo caminho. Tive problemas no fígado, tive um monte de problemas, vivia no tão conhecido efeito sanfona e só aumentava a dose daquela porcaria, que foi ficando cada vez mais difícil de conseguir. Só parei de tomar isso e outros lixos quando engravidei, aos 23 anos.

E se eu disser que estou livre dessa desgraça hoje, estarei mentindo. Distúrbio alimentar é pra sempre. Tem dias que eu me olho e vejo outra coisa no espelho. Tem dias que a dismorfia corporal acorda comigo, mas agora eu sei que ela está lá. O que ocorreu foi uma mudança profunda em mim, na minha relação com meu corpo.

Eu não sou um bibelô. Eu não nasci pra enfeitar e estar dentro de um padrãozinho. Descobri a maravilha de fazer exercícios porque me amava, não porque me odiava e precisava me livrar de pedaços de mim. Descobri que é o meu corpo que me faz sentir todas as coisas boas da vida, que me leva pra onde eu quero ir, que é com ele que eu abraço quem eu amo, que eu respiro, que eu gozo, que eu escrevo, é nele que eu existo.

Quando essas fotos maravilhosas desse projeto tão lindo foram tiradas meu corpo era um; agora já é outro. Mas é meu. Sou eu. Eu sou ele e moro nele com quilos a menos ou a mais. Eu me abraço, eu me amo e até que a nudez não seja indecente – e depois que não for também – eu vou exibir meu corpo, porque se for depender da mídia nossa nudez só será permitida quando para agradar homem, nunca pra que as mulheres e meninas se enxerguem e vejam que não há nada de errado com seus corpos.

Diversidade é isso: corpos diversos, de todas as cores, tamanhos e formatos, assim como somos, assim como vivemos, como as mulheres que andam na rua, que sentam ao nosso lado no metrô, como as mulheres todas.

Não é fácil se gostar num mundo que constantemente quer que a gente se odeie pra vender dieta, vender plástica, vender normalidade e felicidade. Mas estamos aqui e vamos resistir.