[aviso de gatilho: estupro / suicídio]

Eu me lembro da primeira vez que me senti inadequada e frágil. Estava na pré-escola e aquele menino jogou areia nos meus olhos e me bateu, porque não gostava de japoneses. Um dos tapas que ganhei nesse dia tirou um tanto da minha pele. No lugar ficou uma manchinha escura que até hoje carrego embaixo do meu olho esquerdo para me lembrar todos os dias de ser forte e de não ter vergonha de quem sou.

Meu nome é Cristina, tenho 25 anos. Sou historiadora e fotógrafa. Falar do meu corpo é, antes de tudo, falar da minha história, da minha identidade. É falar de como eu me tornei quem eu sou.

Ao conhecer pessoas novas, sempre noto que falam com saudosismo e felicidade da própria infância. Fico feliz por elas. A minha infância foi solitária e triste. Sem amigos, com dramas familiares e essa noção que se arrastou até parte da minha adolescência de que havia algo profundamente errado comigo, com minha aparência.

A noção de beleza que construí na infância se deu por meio da televisão, de revistas e da escola. A televisão e as revistas nunca mostraram qualquer representatividade da minha etnia de modo que ser bela para mim foi por muito tempo um padrão branco e eurocêntrico. Não via beleza nos meus traços orientais.

A mídia me ensinou que eu não estava dentro dos padrões de beleza. Se quer tinha nascido nesses padrões. Mas que o padrão de beleza era alcançável, como naqueles programas que até hoje existem em que a mulher toma um banho de loja e faz procedimentos estéticos absurdos para ser reapresentada a sociedade como “uma nova mulher”.

A experiência da escola não ajudou em nada a eu ver minha beleza ou qualquer coisa reconfortante sobre quem eu era. Foi dentro do ambiente escolar que vivi nove anos de hostilidade diária, desprezo, agressões verbais e psicológicas. Boa parte delas por causa do meu cabelo.

Sim, por causa do meu cabelo.

A minha descendência japonesa veio da família do meu pai e não era abraçada em molde algum social, tanto em questão de representatividade de beleza quanto nos esteriótipos sobre a etnia (até hoje me questionam que tipo de japonesa eu sou que não sabe fazer contas direito). O único traço evidentemente não oriental que tenho é o cabelo crespo, como o da minha mãe.

Na oitava série houve essa experiência na aula de física sobre polaridades com imãs. As garotas que implicavam comigo tiveram a brilhante ideia de atirarem seus imãs na minha cabeça dizendo que grudaria por ser bom-bril. Isso doeu. Ainda dói fundo. Era muita maldade para deixar alguém triste e nunca entendi o porquê daquilo ser direcionado a mim. Eu nunca havia sido a única da sala com o cabelo cacheado. Entretanto, era a única da sala a ser filha de uma mulher de cabelos cacheados que tinha a pele mais escura – uma dos lindos traços que minha mãe herdou de sua avó, que tinha descendentes negros.

Não preciso contar o tamanho da ignorância e do racismo em que foram criadas as crianças que me atormentaram, preciso?

Aos nove anos eu tive meu primeiro quadro de depressão. Isso só ficou claro para mim anos mais tarde, tal como a falta de representatividade ou o preconceito que sofri. Aos quinze anos troquei de escola para o ensino médio. Os problemas de falta de aceitação e de garotas rindo da minha aparência foi retomado. Para mim era evidente que o problema não era mais quem me agredia. O problema era eu, pensava. Não me encaixava no mundo. Não deveria ter nascido. Decidi me matar e pesquisei com afinco um veneno que fizesse o trabalho de modo rápido.

Apesar de saber do veneno não segui adiante com o plano. Foi então que comecei a fazer as duas coisas que mais me fazem bem hoje: escrever e fotografar.

O caminho que encontrei para aceitar minha beleza foi o da auto descoberta. Tudo ocorreu mais dentro da minha cabeça, da maneira como olhava o mundo, encarava a minha realidade e lidava com ela do que com o fato de eu desistir de fazer plástica, parar de alisar meu cabelo, de encarar minhas estrias como marcas do meu corpo, não como algo que eu deveria ter vergonha. O fato de eu me sentir bela teve menos a ver com uma mudança do corpo e mais com uma mudança de mente.

Boa parte das minhas inseguranças em relação ao corpo começaram a passar quando comecei a meus relacionamentos, mais pelo motivo acima do que por eu me relacionar. Vieram outras inseguranças, sobre sexo, compromisso e sobre amor.

A insegurança em relação a minha sanidade mental começou após dois anos dentro de um namoro. Eu estava na faculdade e ele era um homem mais velho. Eu não sei quando o relacionamento começou a ficar abusivo, mas lembro claramente das incontáveis vezes que eu chorei copiosamente em minha cama, algumas vezes com ele dormindo ao meu lado, confusa e triste com o que estava acontecendo.

Se eu estava insatisfeita ou magoada com um comportamento dele e tentava conversar, a postura dele era tão relutante em afirmar que não havia nada de errado com o que havia feito, de modo que acabávamos em uma longa discussão que findava ao me achar injusta e exigente com alguém que me amava. Eu passava algumas semanas acreditando que o problema era eu e que tudo ficaria bem até, inevitavelmente, o problema reaparecer e o ciclo se recomeçar.

Era emocionalmente e fisicamente desgastante. O ápice foi quando eu passei a pedir desculpa não apenas por ser o que ele chamava de injusta, mas pelos erros que ele havia feito comigo. Ele era a vítima sempre, do meu criticismo, da própria família, da sorte, da vida e dos próprios erros. Do imenso amor que eu senti, ele se aproveitou de cada gota para distorcer a minha realidade, para voltar a minha vida a uma eterna espera por um compromisso, para ele se decidir finalmente cuidar de mim.

O que eu mais me perguntava era se estava louca. O que eu pensava e o que ele dizia que era verdade eram dois mundos distintos. Eu era constantemente taxada por ele como muito sensível, emotiva, inadequada e descontrolada. Vivia constantemente estressada, infeliz, cansada e solitária. Apesar de não ver o abuso em si, via claramente o egoísmo e o desleixo dele  para comigo.

Por esse desgaste tão grande, por não me sentir cuidada por quem amava e por outros infortúnios que tomei uma quantidade enorme de remédios. Era Novembro. Eu tinha acabado de passar por uma cirurgia traumatizante. Sabia que se passasse por aquele período difícil as coisas melhorariam, contudo, não achava que valia a pena continuar vivendo.

Minha mãe me impediu de tomar todos os remédios. E eu, de fato, passei por aquele período difícil e prometi a mim mesma mudar as coisas. Comecei outra faculdade. Me afastei de quase todos que conheço. Adotei a fotografia como minha segunda profissão. Foi aí que o termo que eu tão bem conhecia como “feminista”, finalmente fez sentido na minha realidade:

Gaslighting ou gas-lighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima. (via Wikipédia)

O confronto do comportamento abusivo foi bem pior do que o abuso. Foi cansativo e devastador. Terminei o relacionamento e comecei a me reconstruir em meio a pesadelos muito reais de que ele voltava a minha casa para matar a mim e a minha família. Demorou um tempo para eu me convencer de que nunca foi louca e de que na verdade sou uma mulher forte.

Foi nesse processo que uma antiga lembrança submergiu a minha memória, no final do ano passado.

Eu me lembrava de ter feito sexo com esse homem e ir ao banheiro com muita dor. Eu estava sangrando. Sangrei durante dois dias e fiquei dolorida por duas semanas. Lembrava do meu choro, lembrava de me sentir usada e de achar meu corpo tão sujo, um fardo tão grande, que fiquei sem me alimentar direito e tomar banho por dias, porque de uma forma muito distorcida achava que não merecia estar limpa e alimentada. Me lembrava da falta de amor dele todas as vezes que me falou depois disso que me amava. Me lembrava da irritação que ele fazia questão de expor quando me impus dizendo que não faria mais sexo com ele. Me lembrava claramente a como ele dizia que ele não queria me machucar nesse dia e que tudo havia sido um acidente.

O que eu não lembrava era de que eu havia dito durante o sexo para ele parar, que ele estava me machucando. Eu fui bem clara, minha voz era audível. Ele não parou até eu conseguir ter forças para me desvencilhar dele, me trancar no banheiro em lágrimas e limpar meu próprio sangue.

Por mais que eu tenha passado muito tempo com essa memória guardada em algum canto da minha mente, eu nunca acreditei na versão dele. O sexo e o carinho haviam se transformado em ódio, desrespeito e violência em questão de minutos. Foi intencional. Foi intencional para ele me machucar mesmo eu pedindo para que não o fizesse.

A noção de que o estuprador é sempre um desconhecido num beco escuro nunca foi próxima de mim, pois sempre convivi com mulheres abusadas sexualmente e suas histórias. Entretanto, o estupro que sofri, escondi bem fundo em minha memória até conseguir encará-lo de novo com a mente limpa e menos confusa. E eu o encarei de maneira fixa durante dias a fio. Eu chorei com o coração cheio de dor, não por ter sido abusada por alguém que eu amava, mas por eu ter sofrido tanto, dessa maneira tão dura, cruel e muda.

Penso que agora alguém consegue ouvir a minha voz.

Meus amigos me acham uma mulher livre, decidida e durona. Eles, todavia, não sabem de quase nada dessa história que acabei de contar; da história do meu corpo, da minha vida. Eu não me vejo como meus amigos veem.

Para mim sou uma mulher que é fruto da própria história.

Sou aquela que se isola a cada dia mais e que tem dificuldade em se aproximar de novas pessoas. Sou a mulher que não confia em ninguém. Sou um tanto amarga como o café escuro que tomo durante o dia. Sou, antes de tudo, a minha resistência. Porque a sociedade lá fora tenta dobrar a nós, mulheres, com todas as forças ao nos fazer acreditar que devemos estar em padrões de beleza irreais, ao nos difamar nos chamando de putas por assumirmos nossa sexualidade, ao vender a ideia que devemos nos diminuir, aceitar as restrições impostas ao nosso gênero e todo o tipo abuso para sermos acolhidas socialmente, para sermos amadas na nossa vida íntima.

Como disse Simone de Beauvoir, não se nasce mulher, torna-se. E eu resisto como mulher ao persistir ereta, ao me levantar todas as manhãs com coragem de encarar e viver a minha vida.

Ficha Técnica:

Maquiagem: Hilde de Paiva [instagram.com/hildepaivabeauty]
Cabelo: Dani Gaspariam [instagram.com/cabelosdadani]
Lingeries: The Bralette Boutique [braletteboutique.com]