sabe, eu tenho uma relação muito forte com uma coisa que chamo de “contexto”. eu chamo de contexto tudo aquilo que está ou esteve em nossa volta. pessoas, músicas, costumes, cheiros, comidas, ideias. tudo aquilo que tornou você o que o é hoje. somos mera consequência do ambiente em que nascemos.
eu levo isso bem a serio.

porque eu nasci numa família incrível. sério, é como se tivessem escolhido a dedo uma família para mim. uma mãe loira, alta, magra com olhos azuis e um pai provedor, com um trabalho incrível. antes de mim, nasceram dois garotos magros e altos, todos lindos com seus cabelos escorridos.

e eu nasci por ultimo. e isso não era um problema até minha adolescência.
foi quando eu descobri que minha única função como mulher era ser bonita.
e esse negócio de ficar bonita foi ficando cada vez mais difícil. eu alisei o cabelo, usava roupas diferentes, passava maquiagem até para ir para escola. eu tinha todos os requisitos, menos o corpo.

para você ser bonita, sua cintura deve ter a proporção de uma boneca. exatamente como o corpo da minha mãe, escolhida a dedo pelo meu pai para dar filhos bonitos.

eu nunca fui gorda, nunca usei mais que 38 na adolescência, nunquinha. mas eu tinha algumas dobrinhas e gorduras que me impediam de ser bonita. me impediam de ir a praia usar um biquíni, me impediam de me despir para perder a virgindade, me impediam de me ver nua no espelho.
me impediam de me sentir em casa, dentro do meu próprio corpo.

não demorou muito para eu enfiar a cabeça dentro de um vaso sanitário e enfiar o dedo na goela.
nunca contei isso para ninguém, mas a primeira vez que tentei foi quando meu pai ficou uns meses sem me ver depois de sair de casa. nunca vou esquecer que em nosso reencontro ele comentou como eu “estava mais gordinha”. nunca mais usei aquela blusa justinha e entrei no carro de volta para casa decidida a emagrecer pelo preço que fosse.

enquanto morei com a minha família, era uma guerra interna para me provar bonita. meus irmãos viviam falando de como fulana e beltrana eram gordas, que nunca teriam ninguém que preste. e elas tinham o mesmo corpo que o meu. só umas dobrinhas sem pretensões.
foram anos de dietas impossíveis, dias inteiros sem nenhuma refeição, a cabeça dentro do vaso sanitário, ou sentada nele por horas até que eu conseguisse cagar tudo aquilo que eu tinha comido.


transtornos alimentares são tratados como coisas elegantes, de gente rica. o que eles não mencionam são os dentes amarelos e as dores do estômago pelos vômitos, os dias que passamos fracas porque simplesmente não nos alimentamos, a vontade de chorar em todas as refeições, as hemorróidas por forçar as próprias fezes. e tudo isso para se sentir bonita. engraçado que eu não acho nada disso bonito.

as pessoas também acham difícil perder o hábito de fumar porque alguns amigos fumam. imaginem só como é perder o vício de expelir comida, sendo que você come todos os dias, pelo menos três vezes. viver é um gatilho. cheiro de comida é gatilho, jantar é um gatilho, sair para jantar é um gatilho. vontade de ir ao banheiro é gatilho, tomar banho é gatilho. você vive em função do que come. eu vivia em função do que eu mais odiava: ter que comer.

isso só teve fim quando eu saí de casa. eu preparava minhas próprias refeições, vestia o que eu quisesse e ficava nua quando quisesse. mas, principalmente: eu mudei minhas companhias. eu passei a não ouvir mais nada sobre meu corpo. ninguém se importava, era só um corpo. e aos poucos isso foi tomando proporções maiores. eu descobri pessoas com os mesmos problemas que os meus e mais que isso: descobri que isso era um problema. o que até então eu via como uma forma de ficar bonita, que na minha cabeça, eu tinha todo controle da situação. e nunca tive.

lembro de avisar aos poucos minhas amigas sobre isso. e descobri que algumas delas também estavam tentando sair dessa. tentávamos nos dar apoio. é muito mais fácil dar suporte do que lidar com os próprios demônios. aos poucos fui tomando consciência de tudo aquilo que eu fazia. me obrigava a sair com as roupas que eu tinha vergonha que marcasse a barriga. me obrigava a me ver sentada com as dobrinhas empilhadas, exatamente como você vê agora. você já se viu assim? sentada naturalmente? para mim foi muito chocante.

sempre me perguntam o que mudou. o que, de fato, acabou com meus transtornos alimentares. fui eu. eu mudei. eu mudei meu contexto, meu contexto me mudou. no lugar de comentários destrutivos, eu tinha amigos prontos para me ouvir e dar suporte. eu tomei coragem para me amar. amar meu corpo apesar de todos os padrões, de toda cobrança, de toda maldita expectativa que cai nos corpos femininos.

hoje, me alimento normalmente.
a unica diferença, é que como poder em todas as refeições.
porque eu, simplesmente posso tudo.