“Você deveria emagrecer um pouco, mas digo isso só pela sua saúde mesmo”, “É bonita sua pele da cor do pecado”, “Você deveria comer mais coisas saudáveis”, “Tem certeza que vai comer essa batata frita?”, “Você é linda… de rosto!”, “Devia alisar o cabelo, fica mais chic”, “Gostava mais do seu cabeço alisado, essas tranças têm aparência de suja”, ” Turbante é coisa de macumbeiro, credo!”  

São comentários que ouvimos a vida toda, esses que contribuem para que a nossa autoestima fique baixa, que nos leva à, todo momento, querer esconder nossos corpos, negar nossas raízes e acreditar que somos inferiores.

Há uma negação muito forte sobre a afirmação da mulher negra e gorda, tenta-se esconder e/ou omitir a nossa figura e história, devido a muitos paradigmas que nos cerca, costumam rotular- nos como mais velha do que realmente somos, pouco cuidadosa, sem higiene pessoal, ignorante e sem educação, além dos diversos episódios de ridicularização por causa da aparência física.

Construir uma autoestima numa sociedade onde já se vive com esse estereótipo nem sempre é fácil, aliás, nunca é fácil. Muitas vezes pensamos em nos adequar ao padrão socialmente imposto, desdobramo-nos a fazer dietas, alisar cabelos e até submeter-nos a procedimentos cirúrgicos para ficar cada vez mais magra e embranquecida. Exemplos nítidos dessa situação são a bariátrica que se tornou um método de emagrecimento tão banal e o alisamento de cabelo, que é tido como uma obrigação a mulheres de cabelo crespo.

Esse processo de autoestima, comigo aconteceu de forma um tanto diferente, pois essas imposições nunca me fizeram desacreditar na minha beleza, desde criança olhava no espelho e me sentia bonita. Na verdade o meu questionamento era ‘Eu sou bonita, porque eles dizem que sou feia?’ Por muito tempo fiquei sem entender, passei por diversas fases da vida, convivendo com essa questão, até que durante a adolescência decidi alisar o cabelo totalmente e no final dela entrei em uma dieta super radical regada a muitos inibidores de apetite e exercícios excessivos. O curioso é que isso ocorreu não por eu me sentir feia e sim por eu querer ser igual às outras, talvez porque assim seria mais fácil segurar essa barra que é não ser padrão.

E isso realmente aconteceu, com o tempo fui perdendo peso e a conivência com o mundo ficando mais fácil, afinal agora eu cabia nas catracas e assentos dos ônibus, as pessoas já não me olhava torto quando eu ia comer na rua. Agora eu recebia diversos elogios sobre minha aparência bonita, saudável, elegante e até mesmo sobre a minha ‘força de vontade’ em passar por todo aquele sofrimento, mas não desistir de ficar magra.

Como eu imaginava antes, ficou tudo mais fácil de lidar com o povo, porém internamente eu já não me entendia, não me reconhecia e me sentia habitando um corpo que não era meu, a impressão que eu tinha era que eu estava presa naquelas dietas, remédios, academias e nunca mais voltaria a ser uma ‘pessoa normal’. Por tempos me segurei levando essa vida, até que aos poucos fui voltando a comer o que gosto e já não suportava mais os remédios.

Voltei a engordar e na real, não foi nada fácil pensar que eu voltaria a meu antigo corpo, aquele discriminado e subjugado em todo lugar. Mas foi nesse momento que decidi que seria eu mesma e me gostar com o corpo que eu tenho, aprendi à duras penas que não adianta me sacrificar pra ter uma aparência agradável aos olhos dos outros.

Claro que as pessoas se sentiam no direito de questionar o meu corpo, afinal de contas onde já se viu, além de preta ainda se dar ao desfrute de ser gorda? Mas nesse momento eu não aceitava mais ninguém metendo bedelho na minha vida, para cada “nossa, porque você não volta a fazer regime?” era uma resposta pé no peito, sem medo de ser rude ou ignorante e muitas vezes até mal educada, mas se era disso que eles precisavam pra me respeitar, era isso que eu os daria.

Quando decidi aceitar meu corpo, a meta era gostar dele do jeito que é, deu tão certo que hoje não só gosto como o amo, ele faz parte de mim e da minha história, o meu corpo construiu a mulher que tenho orgulho de ser: PRETA, GORDA, CRESPA e maravilhosa, sim! O amor próprio é o melhor dos sentimentos, viver na sociedade atual amando seu corpo independente de sua forma, é a melhor e a mais gostosa REVOLUÇÃO! <3