Meu nome é Ingrid, tenho 21 anos, estudante de psicologia, moro em São Paulo / Capital, aparentemente tenho uma “casca” saudável, bonita e dentro dos “padrões de beleza” imposto pela sociedade; Branca, cabelos ondulados e magra.

Apesar da casca representar todo esse estereótipo, eu não nasci dentro dos padrões de “normalidade” da sociedade, sou a diferentona da família! Agradeço o convite para o projeto sobre a diversidade dos corpos femininos e que me deu a oportunidade de hoje compartilhar com vocês minhas cicatrizes físicas e psicológicas em relação ao meu corpo.

Em sua concepção o que ser um deficiente físico? Utilizar cadeiras de rodas ou muletas? Ou aparentemente tem que estar com algum membro mecânico evidente?! Nem sempre a deficiência física é nítida. Eu nasci com uma deformidade chamada Pé Torto Congênito nos dois pés. A gravidade da deformidade era complexa e por isso realizei em torno de 9 cirurgias no pé esquerdo e uma no direito. Na infância não tive problemas com as cicatrizes evidentes em todo o pé, mas sofri bullying por utilizar as botas ortopédicas a maior parte da infância – que não era lá nenhum tênis de rodinha rosa. Na verdade, toda a frustração que tive, foi em minha adolescência.

Tudo começou com o primeiros “nãos”:

“Ingrid, você não pode usar salto alto no aniversário de quinze anos da sua amiga”; “Você pode não dançar durante horas com seus amigos”; “Você não pode ficar por muito tempo em pé em shows”, etc.

Ok, sempre ultrapassei essas regras e me aceitava muito bem! Há dois anos atrás a limitação se tornou mais grave e tive que lidar com a adaptação das minhas tarefas novamente. Comecei a utilizar bengala, usar tênis esportivo (o que não gosto), dizer não para os meus amigos, festas, baladas, danças e tudo que contenha algum tipo de impacto físico. Como aceitar aos 21 anos utilizar bengala para auxiliar a locomoção nessa fase da vida? Como é ir a uma loja e nada te servir por que em um pé você calça 32 e no outro 34? Como ter uma boa auto estima em relação ao nosso corpo quando alguém que você gosta não fica contigo somente pela sua deficiência ou pelas suas cicatrizes que são “nojentas”?

Meu corpo já passou por diversas invasões, tanto pelo bisturi que foi para minha própria saúde física, como também pelo assédio sexual que sofri na infância. Minha luta hoje em dia é tentar passar essa reflexão para qualquer pessoa que cruze meu caminho. Não querer transar, não querer ser tocada, não ser auto-confiante para realizar algumas tarefas, é normal! Não conhecemos a história de vida das pessoas. Alguns me chamam de dramática e não sabem o porquê sou tão “folgada” e não aceito os convites a passeios ou quando recuso ir ao parque com as amigas… Os homens não entendem o porquê tenho minhas barreiras para me relacionar.

Confesso que hoje ainda não estou 100% bem, além do problema em meus pés, descobri recentemente que também tenho alguns problemas no quadril (ambos os lados), o que dificulta meu caminhar, minha relação sexual, minha postura e principalmente o nível da dor.

A probabilidade de voltar a uma mesa cirúrgica é alta e algo que tenho total aceitação, a probabilidade em poder não engravidar ou ter uma gravidez de risco (no qual não poderei andar de fato) também é alta! Conforme o tempo eu vou tentando me adaptar com as novas limitações, com a falta de educação e olhares de “você é nova, sai daí do meu lugar preferencial” com os olhares de dó e os olhares de “você não vai conseguir”.

Hoje em dia ser empático é um ato revolucionário! Tentar compreender e se colocar no lugar do outro realmente é algo raro, aliás ninguém vai sentir o que você sente, a dor é só sua e você deve respeitá-la com muita perseverança e tentar olhar para situação com muito orgulho e agradecer a experiência, as dores e A VIDA!

Sua casca não vale mais do que sua vida! Cuide-se, faça psicoterapia, ame-se e respeite as deficiências físicas e mentais das pessoas.