Poderia começar a me apresentar me resumindo em uma única palavra: corajosa. Eu precisei (e ainda preciso) de toda coragem possível para me tornar a mulher dos meus sonhos, que durante anos estava trancada num corpo que não condizia a sua realidade.

Meu nome é Juliana Louise Feitosa, tenho 23 anos, nascida e criada em São Paulo. Filha única de mãe solo (e cristã), escorpiana, apaixonada por moda, jazz, filmes vintage e obcecada pela rainha do burlesco Dita Von Teese, rs.

Poderia ser apenas mais uma garota fashionista, vivendo uma vida comum se não fosse por um detalhe: Eu sou uma mulher trans. Costumo referir a mim mesma como a melhor obra. Eu me aceitei, me assumi e me modifico a cada dia em busca do meu florescer – interior e exterior. Busco em estrelas de Hollywood e ícones modernos o meu “eu” interior. Que minha personalidade exagerada, exuberante seja minha marca registrada e que não me sinta culpada por não ser “naturalmente” bela. Eu quero ser a mulher dos meus sonhos, sem a necessidade de aprovação alheia.

Não foi uma tarefa fácil me descobrir. Foi doloroso me aceitar e viver nesse mundo tão violento e selvagem, é no mínimo desafiador. Todo dia é um olhar de desprezo, alguém rindo de mim, me assediando e por vezes chegando a agressão verbal – e física. Resistir, insistir e continuar confiante, é assim que encaro a vida.

O que você imagina que aconteceu assim que me assumi trans para os meus pais? Foi um dos piores dias da minha vida, chorei até perder as forças, ouvi que parecia uma prostituta, que era motivo de vergonha. Ninguém da minha família inteira ficou do meu lado. Precisei aprender na marra que nunca serei suficiente para eles (e talvez para ninguém) mas sou para mim. Foram necessárias muitas crises de choro, noites sem dormir, tentativas frustradas de suicídio… até aprender de uma vez por todas que o único amor que eu conheço e que vai permanecer comigo até o último dia de minha vida será o meu próprio.

Eu já cresci me odiando ao perceber que não era parecida com as outras garotinhas da escola. Não foi amor a primeira, nem segunda vista. Eu já odiei meu corpo, o mutilei, passei dias sem comer direito, noites sem dormir… O que me consolava era imaginar que na vida adulta eu seria uma linda mulher, então logo tão cedo me tornei obcecada por moda, filmes, novelas de época e celebridades.

A chegada da adolescência foi um susto! A puberdade me deixava aflita. “Por que Deus fez isso comigo?” perguntava aos prantos quando via uma imagem masculina refletida no espelho. As tentativas de suicídio partem dessa passagem da minha vida. Os pelos nas pernas cresciam e com eles uma vontade de acabar com a minha própria vida. Eu não queria acreditar que aquilo estava acontecendo comigo.

Passaram alguns anos até que admiti para mim mesma que sou uma mulher em outra forma, e que não há nada de errado nisso. Todos somos diferentes e todos temos a chance de modificar aquilo que não nos agrada. “Eu posso ser a mulher dos meus sonhos” era o que pensava (e penso até hoje), enquanto usava muita maquiagem e roupas diferentes.

Eu não tive o apoio da minha família nessa descoberta. Minha própria mãe disse sentir vergonha de mim e seu marido já declarou ódio, desprezo e aversão a minha existência. E assim veio mais uma tentativa de acabar com esse sofrimento de vez. Até agora não temos uma boa relação e honestamente, nem me importa mais. Como disse anteriormente, nunca serei suficiente para eles, mas eu sou para mim. Uma mulher que se descobriu diante do desespero, provou a si mesma que era forte e continua a sonhar merece meu respeito e admiração. E adivinhe só? Estou falando de mim.

Os hormônios podem ajudar a modificar meu corpo, junto de horas diárias de corset, exercícios físicos e uma pequena intervenção cirúrgica que será realizada em breve… Até lá posso olhar para meu corpo com carinho. Meu corpo é tão pequeno e frágil mas já superou tantas agressões… e continua tão lindo. As vezes penso comigo mesma em pedir perdão ao meu corpo devida tantas vezes que já o mutilei. Não é culpa minha não preencher os requisitos alheios. Aos poucos estou florescendo e me tornando a mulher dos meus sonhos.

Desde a descoberta do meu amor próprio as portas se abriram para mim e eu senti o meu florescer. Aos poucos percebi que várias pessoas se identificavam comigo e sendo próxima a eles pude ver de perto o florescer dessas pessoas. Várias amigas começaram a se amar mais, a se arrumarem para si, a se divertirem com as possibilidades de serem diversas versões de si mesmas.

Por isso eu tenho essa paixão sem explicação pelo glamour. O que te faz uma pessoa glamourosa não é o seu “natural”e sim a sua criação de si própria. Você não tem necessidade de ser muito magra, muito jovem ou se encaixar no padrão imposto pela sociedade; Você tem total domínio sob sua própria criação. A possibilidade de dar vida à todo aquele sonho que se passa pela minha cabeça e finalmente me tornar a mulher deles tem sido meu incentivo até o momento. A vida pode ser muito trágica, São Paulo está ficando cinza mas eu não posso ser culpada por gostar de brilho, cores e diferentes formas.

Muitos me odeiam por ser “artificial” mas por trás de tudo há um coração em recuperação, tentando florescer sozinho. Quando vejo alguma pessoa tentando me diminuir penso numa entrevista que Dita Von Teese dizia:

“Eu fico lisonjeada em não ser da sua tribo. Estou satisfeita comigo mesma, obrigada. Não desejo ser como você”.

Costumo pensar que ela teria orgulho de mim.