“A Vitória é de São Paulo, mas, se pudesse, viveria no mar. ” Revista Capricho – Edição 1206 página 48.

Por muitos anos da minha vida essa frase não teria sentido. Apesar do meu amor pela água existir desde que me lembro por gente, por um bom tempo não consegui chegar perto dela por ter vergonha do meu próprio corpo.

As lembranças dos tempos que não era gorda existem para mim apenas em fotos. Anos e anos sendo a fofinha, gordinha e chorona. As roupas passaram a aumentar de tamanho cada vez mais, de maneira inversamente proporcional ao meu amor próprio.

Sei que muita gente que conheço vai ler isso e se lembrar de mim apenas como a menina alegre que estava sempre falando com todo mundo. O que ninguém lembra são as diversas vezes em que fui excluída de grupinhos, perguntada se “já não estava na idade de começar uma dieta”, ou quando ia “alisar o meu cabelo para pelo menos chamar menos atenção”.

Foram anos assim. Sempre escondendo o corpo, usando roupas maiores e deixando outras de lado, já que não ficava muito bem mostrar os braços e as coxas, não é mesmo?

Não. Estudei sobre o Feminismo. Conheci, mesmo que algumas só virtualmente, mulheres gordas. E o mais importante: elas passaram a ser referência para mim (inclusive a Clara, que maravilhosamente também faz parte desse projeto). Parei de ter medo da balança. Minha visão de mundo começou a mudar, e com ela a noção que tinha do meu corpo se alterou também. Com muita leitura, calma e cada vez mais cercada de mulheres incríveis, aprendi que meu corpo é o meu lar.

Depois de me jogar de cabeça num universo que me aceitava, passei a perceber que isso era infelizmente uma bolha. As pessoas fora dela – muitas, por sinal – ainda fazem “piadas inofensivas”, usam termos como “gordice” e acham que bonita de rosto é um bom elogio. Não é, gente, não é.

Nesses caminhos difíceis mas que me deixam cada vez mais confortável com o meu próprio corpo que aprendi a palavra resistência, tanto na teoria quanto na prática. Vi – depois de anos para criar coragem de postar – foto minha de biquíni sendo usada como motivo de zoeira por aí – mas continuei postando. Li que não sou nem “comível” pelo meu tamanho – e não liguei.

Mas a gente continua, né? Principalmente quando descobri que isso estava ajudando outras pessoas. O impulso de seguir em frente bateu muito mais forte, a luta se tornou muito maior. É assustador e incrível ao mesmo tempo, assumo. Ver meninas mais novas do antigo colégio me mandando mensagem para agradecer o apoio que nem sabia que tinha dado foi uma das coisas mais lindas que já me aconteceu. Disso, para amigas próximas, parentes e até gente que não conheço foi um pulo. Cada mensagem é sempre um abraço apertado. Não posso deixar de dizer a importância que isso tudo tem.

Agora tenho até tatuagem que me lembra todo dia que eu devo amar e respeitar meu corpo, independe do meu peso. Que com todos esses quilos aqui, eu faço o que eu quiser, desde virar uma sereia ~ real ~ pintando o cabelo de azul, até participar desse projeto incrível.

Por tudo que passou. Não tem mais volta. Por mim e por todas. A luta só começou. ❤